Projeto de
cena
O fragmento escolhido para a adaptação foi a cena final do primeiro ato.
Nela, após Inézia entregar ao doutor Olegário um telegrama este põe Lídia mais
uma vez a mercê dos seus testes cruéis para ter certeza sobre a fidelidade da
esposa.
(As
luzes se acendem dando início a cena. Mostra-se a sala da casa de Olegário,
Olegário sentado em sua cadeira de rodas tendo uma conversa com Lídia e Lídia
no sofá, no canto da sala, sentado numa poltrona enrolando incansavelmente o
seu paninho, Seu Ângelo. Entra Igor.)
Igor (apressado) - Telegrama para
o senhor, doutor!
Olegário - Para mim?
Igor - Sim, aqui está. E Seu Ângelo não quis comer.
Olegário (irritado) - Eu já disse que
é só ter paciência Igor, que ele come!
Igor (justificando-se)
- Mas doutor, eu já tentei tantas vezes!
Olegário – Tudo bem, deixe que minha mulher cuide
disso. (noutro tom) Agora vá, vá!
Suma daqui!
(Igor entrega o telegrama e sai. Olegário
abre o telegrama e o lê com profunda atenção. Lídia faz menção de sair.)
Olegário (para Lídia) - Lídia! Lídia! Ainda
não terminamos nossa conversa.
Lídia - Eu sei. Vou só buscar a comida de Seu Ângelo.
Olegário - Então ande. (faz manobra com a
cadeira, para virá-la)
(Lídia observa o movimento.)
Lídia (com nervos trepidantes.) -
Você sabe o que me deixa nervosa? É quando você vira a cadeira.
Olegário (admirado) - Deixa nervosa,
por quê?
Lídia (com certa angústia) - Não
sei. Bobagem!
Olegário (irritado) - Ah, bom!
(Lídia pega a comida de Seu Ângelo que Igor
deixou na bancada e volta para perto da poltrona onde está sentado Seu Ângelo.)
Lídia - Vamos ver se ele come, Olegário.
Seu Ângelo (indignado) - Eu não vou comer essa porcaria! (Volta a enrolar o seu paninho.)
Lídia (impaciente) - Vamos Seu
Ângelo. Coma!
(Lídia fica dando comida a Seu Ângelo, de
costas para Olegário. Olegário aproxima a cadeira de Lídia e Seu Ângelo. Seu
Ângelo faz menção de rejeitar a comida, mas vai aceitando aos poucos.)
Voz
Interior (persuasiva)
- V-8! Marido de V-8! Tua mulher, tua mulher se afasta de ti!
Olegário (com amargura) - Logo que eu
fiquei doente, você não saía de junto de mim o dia todo. Andava triste, não
usava batom. Agora... (amargo)
Pinta-se. Vai à Colombo. Todos os dias sai. Você me visita apenas. Só vem
quando chamo.
Lídia (nervosa) - Ora, Olegário,
que é isso?
Olegário (com irritação crescente) -
Eu sei! Você está sempre arranjando pretextos para não ficar aqui! “Vou mudar
de roupa”! “Preciso ver a comida”, “Tenho que ir lá dentro”. Passa comigo cinco
minutos - assim mesmo por obrigação.
Lídia (sempre dando comida a Seu
Ângelo) - Eu até tenho medo de vir aqui! Você se aborrece e eu me
martirizo. Você não sabe como isso é horrível!
Voz
Interior - Marido de V-8! Marido de uma cínica!
Olegário (com angústia) - Você diz:
“Isso é horrível!” E pensa que eu não sofro, talvez? Tenho um inferno aqui
dentro.
Voz
Interior - Tua mulher é cínica! Ela tem um amante!
Lídia (sempre de costas) - Mas eu tenho culpa, Olegário? Tenho? Você
tem raiva de mim, como se eu fosse culpada! Meu Deus! (com doçura e tristeza) Fui eu que fiz sua doença? (Aponta para as pernas)
(Olegário vira a cadeira e a impulsiona até
a outra extremidade do palco. Lídia tem um olhar intraduzível para a cadeira.
Olegário volta para junto de Lídia e Seu Ângelo.)
Olegário (cruel) - V-8!
Lídia (virando-se, rápida) - O
quê?!
Olegário (com rancor e com voz surda) -
V-8! V-8, sim! Não adianta olhar para mim dessa maneira. (com escárnio) V-8! No Grajaú era assim que todo o mundo chamava
você. Ou vai dizer que não?
Lídia (desesperada) - Você está vendo?
É por isso que eu evito vir aqui! Para não ouvir o que você me diz! Para não
aguentar seus ciúmes!
Olegário (com insistência cruel) - Mas
chamavam ou não chamavam você de V-8?
Lídia (sem Ihe dar atenção às palavras)
- Engraçado, você não era assim!
Voz
Interior - Viu! Ela não nega, é uma cínica!
Olegário (obcecado) - V-8!
(Lídia vira-se para olhá-lo com absoluto
desprezo. Olegário está de costas para a plateia.)
Lídia (com voz surda) - Continue
dizendo V-8! Continue!
Olegário (cínico) - Você quer saber de
uma coisa? Eu acho que a fidelidade devia ser uma virtude facultativa.
Lídia (com desprezo) - Desistiu de
me chamar de V-8?
Olegário (continuando, cínico) - Você
não acha que seria negócio para você e para todas as mulheres? Que a fidelidade
fosse uma virtude facultativa? A mulher seria fiel ou não, segundo as suas disposições
de cada dia. (sardônico) Você com o
direito – de ser infiel. Que beleza!
(Lídia volta-se para Seu Ângelo, ficando de
costas para Olegário.)
Olegário (perverso) - Não diz nada?
(Lídia, em silêncio. Olegário mete a mão no
bolso. Tira o telegrama. Lê para si.)
Olegário (com intenção) - Eu tenho
aqui um telegrama que você daria tudo para ler!
Lídia (cortante) - Não me
interessa!
Olegário (positivo) - Isso é o que
você pensa! (provocador) Se você
soubesse o que diz esse telegrama! Faça uma ideia!
Lídia (desabrida) - Não faço ideia
nenhuma!
Voz
Interior - Ela tem um amante! Teste, teste ela!
Olegário (enigmático) - Sabe quem
sofreu um acidente? Imagine!?
Lídia (vira-se para Olegário. Olha-o) -
Quem?
Olegário (com afetação) - Coitado! Um
desastre de automóvel - veja você! Ficou com as duas pernas esmagadas!
Lídia (contendo-se) - Mas quem foi?
Olegário (sardônico) - Então não
desconfiou ainda?
Lídia (nervosa) - Desconfiar de
que, Olegário? Diga!
Olegário (cruel) - Quem ficou com as
pernas esmagadas!...
(As luzes começam a apagar lentamente.)
Olegário (gritando) - Foi ele! Ele, o
seu amante! Ficou com as duas pernas esmagadas!...
Lídia (num sopro de voz) - Não!
Não!...
Olegário - Seu amante! Seu amante! (riso
de louco)
(Lídia cai de joelhos, aos pés de Olegário,
chorando como uma alucinada. Luzes se apagam.)
Cenografia:
A cena acontece na sala de jantar da casa de Olegário, seguindo o texto
original. Não são necessárias mudanças nesse aspecto.
·
Espaço cênico
O espaço cênico será a sala da banda, não
haverá interação direta entre o a plateia e os atores, visto que na cena os
atores só interagem entre si.
·
Espaço dramático
O espaço dramático da cena será a sala da
casa de Olegário, será ambientado com um sofá, uma mesa de centro decorada com
um jarro de flores ou um telefone, e uma poltrona ao canto da sala.
Sonoplastia:
A cena segue com sonoplastia constante, instrumental, suave até o
momento em que Olegário começa a provocar Lídia com o telegrama, nesse momento
troca-se a musica por uma com um maior clima de tensão.
Iluminação:
A iluminação segue uma linha parecida com a da sonoplastia, as luzes
acendem-se para indicar o início da cena e segue constante até o momento em que
Olegário grita que foi o amante de Lídia quem teve suas pernas esmagadas, a
partir desse momento as luzes enfraquecem gradativamente até o fim da cena,
quando se apagam totalmente.

