terça-feira, 2 de dezembro de 2014





Introdução-
A cena é composta por quatro personagens, sendo eles Antígona (kaio), Ismênia (Rafael Costa) e duas escravas que funcionam como personagens secundários, escrava 1 (Felipe) e escrava 2 (Matheus). Antígona apresenta comportamento impulsivo e convicto, enquanto sua irmã apresenta comportamento defensivo e sensato, fora de cena, as duas escravas das nobres meninas se olham com desaprovação.
A luz foca nas duas personagens que apresentam o diálogo com parte do cenário escuro para que os escravos não sejam vistos e para representar a madrugada, mantendo a cena com luz apenas nas personagens que dialogam até o momento em que Ismênia sai, o sol nasce e entram as escravas para aconselhar Antígona.
A sonoplastia é inexistente já que a situação ocorre em plena madrugada enquanto os cidadãos de Teba descansam seus corpos.
O espaço dramático é composto por uma casa confortável em frente ao palácio do antigo rei Édipo e atual rei Creonte.
O espaço cênico é composto de uma parte iluminada até a saída de Ismênia com uma janela, mesa, no centro, sofá ao fundo e uma porta à esquerda.





Primeira cena “Antígona discute com sua irmã, Ismênia”

Antígona 
Ismênia, minha querida irmã, companheira de meu destino, de
todos os males que Édipo deixou, suspensos, sobre a sua
descendência, haverá algum com que Júpiter ainda não tenha afligido
nossa vida infeliz? Não há provação - sem falar de outras desditas
nossas - por mais funesta, ou ignominiosa, que não se encontre em
nossa comum desgraça! Ainda hoje - que quererá dizer esse édito que
o rei acaba de expedir e proclamar por toda a cidade? Já o conheces,
sem dúvida? Não sabes da afronta que nossos inimigos preparam para
aqueles a quem mais prezamos?
Ismênia
Ó Antígone, nenhuma notícia, agradável ou funesta, chegou a
meu conhecimento, depois da perda de nossos dois irmãos,
mortalmente feridos, em luta, um pelo outro!... Tendo fugido, esta noite,
o exército dos Argivos, nada mais vejo que possa concorrer para
aumentar nossa felicidade, nem nossas desditas.
Antígona
Eu já o sabia... Chamei-te ate aqui, fora do palácio, para que só tu
possas ouvir o que tenho a te dizer.
Ismênia
Que há, pois? Tu me pareces preocupada!
Antígona
Certamente! Pois não sabes que Creonte concedeu a um de
nossos irmãos, e negou ao outro, as honras da sepultura? Dizem que
inumou a Etéocles, como era de justiça e de acordo com os ritos,
assegurando-lhe um lugar condigno entre os mortos, ao passo que,
quanto ao infeliz Polinice, ele proibiu aos cidadãos que encerrem o
corpo num túmulo, e sobre este derramem suas lágrimas. Quer que
permaneça insepulto, sem homenagens fúnebres, e presa de aves
carniceiras. Tais são as ordens que a bondade de Creonte impõe a
mim, como também a ti, e, eu o afirmo: ele próprio virá a este sítio
comunicá-las a quem ainda as ignore. Disso faz ele grande empenho, e
ameaça, a quem quer que desobedeça, de ser apedrejado pelo povo.Tu ouviste o que eu te disse: virá o dia em que veremos se tens
sentimentos nobres, ou se desmentes teu nascimento.
Ismênia
Mas, minha pobre irmã, em tais condições, em que te posso eu
valer, quer por palavras, quer por atos?
Antígona
Quererás auxiliar-me? Agirás de acordo comigo?
(nessa hora, as duas escravas ao fundo se olham extasiados e depois alinham seu olhar à Antígona com ar de reprovação.)
Ismênia
A que perigos pensas arriscar-te ainda? Que pretendes fazer?
Antígona
Ajudarás estes meus braços a transportar o cadáver?
Ismênia
Queres tu, realmente, sepultá-lo, embora isso tenha sido vedado a
toda a cidade?
Antígona
Uma coisa é certa: Polinice era meu irmão, e teu também, embora
recuses o que eu te peço. Não poderei ser acusada de traição para com
o meu dever.
Ismênia
Infeliz! Apesar da proibição de Creonte?
Antígona
Ele não tem o direito de me coagir a abandonar os meus!
Ismênia
Ai de nós! Pensa, minha irmã, em nosso pai, como morreu
esmagado pelo ódio e pelo opróbrio, quando, inteirado dos crimes que
praticara, arrancou os olhos com as próprias mãos! E também em sua
mãe e esposa, visto que foi ambas as coisas, que pôs termo a seus dias
com um forte laço! Em terceiro lugar, em nossos irmãos, no mesmo dia
perecendo ambos, desgraçados, dando-se à morte reciprocamente! E
agora, que estamos a sós, pensa na morte ainda mais terrível que
teremos se contrariarmos o decreto e o poder de nossos governantes!
Convém não esquecer ainda que somos mulheres, e, como tais, não
podemos lutar contra homens; e, também, que estamos submetidas a
outros, mais poderosos, e que nos é forçoso obedecer a suas ordens,por muito dolorosas que nos sejam. De minha parte, pedindo a nossos
mortos que me perdoem, visto que sou obrigada, obedecerei aos que
estão no poder. É loucura tentar aquilo que ultrapassa nossas forças!
Antígona
Não insistirei mais; e, ainda que mais tarde queiras ajudar-me, já
não me darás prazer algum. Faze tu o que quiseres; quanto a meu
irmão, eu o sepultarei! Será um belo fim, se eu morrer tendo cumprido
esse dever.1 Querida, como sempre fui, por ele, com ele repousarei no
túmulo... com alguém a quem amava; e meu crime será louvado, pois o
tempo que terei para agradar aos mortos, é bem mais longo do que o
consagrado aos vivos... Hei de jazer sob a terra eternamente!... Quanto
a ti, se isso te apraz, despreza as leis divinas!
Ismênia
Não! Não as desprezo; mas não tenho forças para agir contra as
leis da cidade.
Antígona
Invoca esse pretexto; eu erguerei um túmulo para meu irmão
muito amado!
Ismênia
Ah! Pobre infeliz! Eu me aflijo por ti!2
Antígona
Não temas por minha vida; trata de salvar a tua.
Ismênia
Ao menos, não digas a ninguém o que vais fazer; guarda segredo,
que eu farei o mesmo.
Antígona
Não! Fala! Tu me serás mais odiosa silenciando, do que se
disseres a todos os que eu quero fazer.
Ismênia
Tu pareces desejar, com o coração ardente, o que nos causa
calafrios de pavor!
Antígona
Só sei que cumpro a vontade daqueles a quem devo agradar.
Ismênia
Se tu o fizeres... mas o que desejas é impossível!
Antígona
Quando me faltarem as forças, eu cederei
Ismênia
Mas não é prudente tentar o que é irrealizável!
Antígona
Visto que assim me falas, eu te odiarei! E serás odiosa, também,
ao morto, junto a quem serás um dia depositada... E com razão! Vamos!
Deixa-me, com minha temeridade, afrontar o perigo! Meu sofrimento
nunca há de ser tão grande, quanto gloriosa será minha morte!
Ismênia
Já que assim queres, vai! Bem sabes que cometes um ato de
loucura, mas provas tua dedicação por aqueles a quem amas!
(Sai Antígone; Ismênia entra no palácio. Entra o Coro, composto
de anciões e tebanos, e saúda o sol que nasce apresentando as duas escravas à cena. Estas vão em direção à Antígona.)
Escrava 1
Minha senhora, meus pais serviram à família de Creontes e atualmente sou órfã.
Escrava 2
Senhora, se me permite dizer, estás prestes a cometer um tremendo erro. Ao longo de minha vida ouvi bastante a respeito de Creontes, és uma louca ao contrariar aquele louco.
Antígona
Quem vocês acham que são a se referirem a mim dessa maneira, olhando nos meus olhos, de joelhos agora!
Que insolência!
(Antígona ergue seu braço para golpear suas servas e então as luzes se acabam mostrando o fim da cena.)
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