terça-feira, 2 de dezembro de 2014



            O fragmento do texto que será usado para o projeto de cena, será o trecho entre o momento em que Édipo comenta com o Corifeu sobre ter a aceitado o conselho de Creonte para buscar ajuda com o sábio Tirésias, até o momento em que sua mulher comenta sobre a profecia que Laio possuía e o destino que ele deu a seu primeiro filho.



(As luzes seascendem determinado o início da cena. Mostra-se a frente do palácio de Édipo, em Tebas. Édipo e o Corifeu estão em frente ao palácio.)

CORIFEU - Eu te falarei, ó rei, conforme determinas com tuas tremendas maldições.
Nenhum de nós foi o matador de Laio; nenhum de nós sabe indicar quem o tenha sido! Que o deus Apolo, que ordenou essa pesquisa, possa revelar-nos quem teria, há tanto tempo já, cometido esse horrendo crime! Nova idéia proporei, além da que já disse.
ÉDIPO - E, se tens uma terceira, fala! Não deixes de a formular!
CORIFEU - Conheço alguém que, quase tanto como Apolo, sabe dosmistérios profundos! É Tirésias. Se o interrogarmos, ó príncipe, elenos dirá claramente o que se passou.
ÉDIPO - Não esqueci esse recurso; a conselho de Creonte mandei doisemissários procurá-lo. Admira-me que ainda não tenham chegado.
Entra TIRÉSIAS, velho e cego
ÉDIPO - Ó Tirésias, que conheceis todas as coisas, tudo o que se possa averiguar, e o que deve permanecer sob mistério; os signos do céu e os da terra... Embora não vejas, tu sabes do mal que a cidade sofre; para defendê-la, para salvá-la, só a ti podemos recorrer, ó Rei!" Apolo, conforme deves ter sabido por meus emissários, declarou a nossos mensageiros que só nos libertaremos do flagelo que nos maltrata se os assassinos de Laio forem descobertos nesta cidade, e mortos ou desterrados.
Por tua vez, Tirésias, não nos recuses as revelações oraculares dos pássaros, nem quaisquer outros recursos de tua arte divinatória; salva a cidade, salva a ti próprio, a mim, e a todos, eliminando esse estigma que provém do homicídio.
TIRÉSIAS - Ordena que eu seja reconduzido a minha casa, ó rei. Se me atenderes, melhor será para ti, e para mim.
ÉDIPO - Tais palavras, de tua parte, não são razoáveis, nem amistosas paracom a cidade que te mantém, visto que lhe recusas a revelação que tesolicita.
Pelos deuses! Visto que sabes, não nos ocultes a verdade!
Todos nós, todos nós, de joelhos, te rogamos!
TIRÉSIAS - Vós delirais, sem dúvida! Eu causaria a minha desgraça, e a tua!
ÉDIPO - Que dizes?!... Conhecendo a verdade, não falarás? Por acaso tens o intuito de nos trair, causando a perda da cidade?
TIRÉSIAS - Jamais causarei tamanha dor a ti, nem a mim! Por que meinterrogas em vão? De mim nada ouvirás!
ÉDIPO - Pois quê! Ó tu, o mais celerado de todos os homens! Tuirritarias um coração de pedra! E continuarás assim, inflexível einabalável?
TIRESIAS - O que tem de acontecer, acontecerá, embora eu guarde silêncio! ...
ÉDIPO - Pois bem! Mesmo irritado, como estou, nada ocultarei do que penso! Sabe, pois, que, em minha opinião, tu foste cúmplice no crime, talvez tenhas sido o mandante, embora não o tendo cometido por tuas mãos. Se não fosse cego, a ti, somente, eu acusaria como autor do crime.
TIRÉSIAS - Será verdade? Pois EU! EU é que te ordeno que obedeças ao decretoque tu mesmo baixaste, e que, a partir deste momento, não dirijas apalavra a nenhum destes homens, nem a mim, porque o ímpio que estáprofanando a cidade ÉS TU!
ÉDIPO - Quê? Tu te atreves, com essa impudência, a articular semelhante acusação, e pensas, que sairás daqui impune?
TIRESIAS - Afirmo QUE ÉS TU o assassino que procuras!
ÉDIPO - Oh! Não repetirás impunemente tão ultrajante acusação!
TIRÉSIAS - Pois eu asseguro que te uniste, criminosamente, sem o saber,àqueles que te são mais caros; e que não sabes ainda a que desgraça telançaste!
ÉDIPO - Crês tu que assim continuarás a falar, sem conseqüências?
TIRÉSIAS - E és tu, ó rei infeliz! - que me fazes agora esta censura... mas umdia virá, muito breve, em que todos, sem exceção, pior acusações
hão de formular contra ti!
ÉDIPO - Isso tudo foi invenção tua, ou de Creonte?
TIRÉSIAS - Creonte em nada concorreu para teu mal; tu somente és teu próprioinimigo.
ÉDIPO - Creonte, meu amigo fiel, amigo desde os primeiros dias, se insinua sub-repticiamente sob mim, e tenta derrubar-me, subornando este feiticeiro, este pérfido charlatão que nada mais quer, senão dinheiro, e que em sua arte é cego. Porque, vejamos: dize tu, Tirésias! Quando te revelaste um adivinho clarividente? Por que, quando a Esfinge propunha aqui seus enigmas, não sugeriste aos tebanos uma só palavra em prol da salvação da cidade? A solução do problema não devia caber a qualquer um; tomava-se necessária a arte divinatória. Tu provaste, então, que não sabias interpretar os pássaros, nem os deuses. Foi em tais condições que eu aqui vim ter; eu, que de nada sabia; eu, Édipo, impus silêncio à terrível Esfinge; e não foram as aves, mas o raciocínio o que me deu a solução. Tentas agora afastar-me do poder, na esperança de te sentares junto ao trono de Creonte! ...
CORIFEU - A nosso ver, ó Rei, tanto tuas palavras, como as de Tirésias, foraminspiradas pela cólera. Ora, não se trata agora de julgar esses debates; oque urge é dar cumprimento ao oráculo de Apoio.
TIRÉSIAS - Se tu possuis o régio poder, ó Édipo, eu posso falar-te de igual paraigual! Tenho esse direito! Não sou teu subordinado, mas sim de Apoio;tampouco jamais seria um cliente de Creonte. Digo-te, pois, já queofendeste minha cegueira, - que tu tens os olhos abertos ã luz, mas nãoenxergas teus males, ignorando quem és, o lugar onde estás, e quem éaquela com quem vives. Sabes tu, por acaso, de quem és filho? Um dia virá, em que serás expulso desta cidade pelas maldições maternas e paternas.
ÉDIPO - Quem poderá suportar palavras tais? Vai-te daqui, miserável!
Retira-te, e não voltes mais!
TIRÉSIAS - Vou-me embora, sim; mas antes quero dizer o que me trouxeaqui, sem temer tua cólera, porque não me podes fazer mal. Afirmo-te,pois: o homem que procuras há tanto tempo por meio de ameaçadorasproclamações, sobre a morte de Laio, ESTA AQUI! Passa porestrangeiro domiciliado, mas logo se verá que é tebano de nascimento,e ele não se alegrará com essa descoberta. Ver-se-á, também, que ele é, aomesmo tempo, irmão e pai de seus filhos, e filho e esposo da mulherque lhe deu a vida; e que profanou o leito de seu pai, aquem matara.
(Sai TIRÉSIAS)
ÉDIPO entra no palácio
Entra CREONTE, possuído de forte irritação
CREONTE - Cidadãos! Acabo de saber que Édipo formulou contra mim gravíssimasacusações, que eu não posso admitir! Aqui estou para me defender!
CORIFEU - Talvez essa acusação injuriosa lhe tenha sido ditada pela cóleramomentânea, e não pela reflexão.
CREONTE - Quem teria insinuado que por meu conselho o adivinho proferiu aquelas mentiras?
CORIFEU - Realmente, ele assim declarou, mas não sei com que fundamento. Entra ÉDIPO, bruscamente
ÉDIPO - Que vieste fazer aqui? Tens coragem de vir a minha casa, tu, queconspiras contra minha vida, e pretendes arrancar-me o poder?
Vamos! Dize-me, pelos deuses! pensas tu, por acaso, que eu seja um covarde, ou um demente, para conceberes tais projetos?
CREONTE - Sabes o que importa fazer? Deixa-me responder a tuas palavrasde igual para igual, e só me julgues depois de me teres ouvido!
ÉDIPO - Foste tu, ou não, quem me aconselhou a mandar vir esse famosoprofeta?
CREONTE - Sim; e mantenho minha opinião acerca dele.
ÉDIPO - Há quanto tempo Laio...
CREONTE - Mas quefez ele? Não compreendo! ...
ÉDIPO - ...Desapareceu, vítima de um assassino?
CREONTE - Já lá se vão muitos anos!
ÉDIPO - E já nesse tempo Tirésias exercitava sua ciência?
CREONTE - Sim; ele já era, então, sábio e respeitado.
ÉDIPO - E, nessa época, disse ele alguma coisa a meu respeito?
CREONTE - Nunca! pelo menos em minha presença.
ÉDIPO - E vós não fizestes pesquisas a fim de apurar o crime?
CREONTE - Fizemos, certamente, mas nada se descobriu.
ÉDIPO - Como se explica, pois, que esse homem tão hábil, não tivesse dito
então o que diz hoje?
CREONTE - Não sei; e, quando desconheço uma coisa, prefiro calar-me!
ÉDIPO - Tu não ignoras, no entanto, e deves em plena consciência confessar...
CREONTE - Que devo eu confessar? Tudo o que souber, direi!
ÉDIPO - ...Que, se ele não estivesse de conluio contigo, nunca viria dizer quea morte de Laio foi crime por mim cometido.
CREONTE - Que ele disse, tu bem sabes. Mas também eu tenho o direito de
te dirigir algumas perguntas.
ÉDIPO - Pois interroga-me! Tu não me convencerás de que haja sido eu o
assassino.
CREONTE - Ora vejamos: tu desposaste minha irmã?
ÉDIPO - É impossível responder negativamente a tal pergunta.
CREONTE - E reinas tu neste país com ela, que partilha de teu podersupremo?
ÉDIPO - Sim; e tudo o que ela deseja, eu imediatamente executo.
CREONTE - E não serei eu igualmente poderoso, quase tanto como vós?
ÉDIPO - Sim; e por isso mesmo é que pareces ser um pérfido amigo.
CREONTE - Não, se raciocinares como eu. Examina este primeiro ponto:acreditas que alguém prefira o trono, com seus encargos e perigos,a uma vida tranqüila, se também desfruta poder idêntico? Porminha parte, ambiciono menos o título de rei, do que o prestígioreal; e como eu pensam todos quantos saibam limitar suasambições. Hoje alcanço de ti tudo quanto desejo: e nada tenho atemer... Se fosse eu o rei, muita coisa, certamente, faria contra aminha vontade... Como, pois, iria eu pretender a realeza, em trocade um valimento que não me causa a menor preocupação? Nãome julgo tão insensato que venha a cobiçar o que não seja paramim, ao mesmo tempo honroso e proveitoso. Atualmente, todosme saúdam, todos me acolhem com simpatia; os que algopretendem de ti, procuram conseguir minha intercessão; paramuitos é graças a meu patrocínio que tudo se resolve. Como, pois,deixar o que tenho, para pleitear o que dizes? Tamanha perfídiaseria também uma verdadeira tolice! Eis a prova do que afirmo: vai tu mesmo a Delfos e procura saber se eu não transmiti fielmente a resposta do oráculo. Eis outra indicação: se tu pro vares que eu estou de concerto com oadivinho, condenar-me-ás à morte não por um só voto, mas pordois: o teu e o meu.
CORIFEU - Para quem, sinceramente, quer evitar a injustiça, ele muito bem te
falou, ó rei. É sempre falível o julgamento de quem decide sem ponderação!
CREONTE - Que pretendes tu, nesse caso? Exilar-me do país?
ÉDIPO - Não!;tua morte, e não apenas o desterro o que eu quero.
CREONTE - Mas... quando puderes comprovar que eu conspiro contra ti!
Só eu sei o que me convém fazer, no meu interesse.
Entra JOCASTA
JOCASTA - Por que provocastes, infelizes, esse imprudente debate? Nãovos envergonhais em discutir questões íntimas, no momento emque atroz calamidade cai sobre o país? Volta a teu palácio, Édipo;e tu, Creonte, a teus aposentos. Não exciteis, com palavras vãs,uma discórdia funesta.
CREONTE - Édipo, teu marido, ó minha irmã, julga acertado tratar-mecruelmente, impondo-me ou o desterro para longe da pátria, ou amorte.
ÉDIPO - É verdade, minha esposa. Acusei-o de conspirar contra a minha
pessoa.
CREONTE - Que seja eu desgraçado! Que morra maldito se cometi aperfídia de que me acusas!
JOCASTA - Pelos deuses, Édipo, - cré no que ele te diz! E crê, não só pelo juramento que proferiu, mas também em atenção a mim e a todo quantos estão presentes!
ÉDIPO - Sabeis, acaso, o que Creonte pretende?
CORIFEU - Eu sei!
ÉDIPO - Explica-te, pois!
CORIFEU - Não acuses por uma vaga suspeita, e não lances à desonra umamigo que se votou, ele próprio, à eterna maldição!
ÉDIPO - Que ele se retire, pois, ainda que disso resulte minha morte, ou meudesterro! Cedo a vosso pedido - e não ao dele; só o vossome comoveu! Creonte, esteja onde estiver, ser-me-á sempre odioso!
CREONTE - Sim! Eu partirei! Doravante não me verás, nunca mais! Para ostebanos, porém, serei sempre o mesmo!
(Sai CREONTE)
CORIFEU - Ó rainha, por que não conduzes teu marido para o palácio?
JOCASTA - Farei o que pedes, quando souber o que se passou.
CORIFEU - Fúteis palavras provocaram vagas suspeitas;
JOCASTA - E as ofensas foram recíprocas?
CORIFEU - Oh! Certamente que sim.
ÉDIPO - Vês tu a que situação chegamos, apesar de tuas boas intenções? Etudo porque descuraste de meus interesses, e deixaste diminuir a afeiçãoque tinhas por mim.
JOCASTA - Mas, pelos deuses, Édipo, diz-me: por que razão te levaste a tão
forte cólera?
ÉDIPO - Vou dizer-te, minha mulher, porque te venero mais do que a todosos tebanos! Foi por causa de Creonte, e da trama que urdiu contramim. Ele presume que tenha sido eu o matador de Laio! Ele insinuou isso a um adivinho, um simples impostor, porquanto ele próprio nada se atreve a afirmar.
JOCASTA - Ora, não te preocupes com o que dizes; ouve-me, e fica sabendo quenenhum mortal pode devassar o futuro. Vou dar-te já a prova do queafirmo. Um oráculo outrora foi enviado a Laio, não posso dizer se por Apoio em pessoa, mas por seus sacerdotes, talvez... O destino do reiseria o de morrer vítima do filho que nascesse de nosso casamento. Noentanto, - todo o mundo sabe e garante, - Laio pereceu assassinado porsalteadores estrangeiros, numa encruzilhada de três caminhos. Quantoao filho que tivemos, muitos anos antes, Laio amarrou-lhe asarticulações dos pés, e ordenou que mãos estranhas o precipitassemnuma montanha inacessível. Nessa ocasião, Apoio deixou de realizar oque predisse!... Nem o filho de Laio matou o pai, nem Laio veio amorrer vítima de um filho, morte horrenda, cuja perspectiva tanto oapavorava! Eis aí como as coisas se passam, conforme as profecias oraculares! Não te aflijas, pois; o que o deus julga que deve anunciar, elerevela pessoalmente!

(Luzes se apagam determinando o final da cena.)

Cenografia
A cena se passa em frente ao palácio, da mesma forma em que acontece no texto original.
Espaço Dramático:
O espaço dramático em todo o decorrer do texto será na entrada do palácio do rei Édipo, com os cidadãos em frente ao altar. Não haverá ambientação em frente do palácio.
Espaço Cênico:
O espaço cênico será a sala da banda, com os atores no palco e o público ficara na área designada para a plateia. Não haverá interação entre os atores e o público.

Sonoplastia
         A cena contara a todo momento com a sonoplastia de som ambiente vindo da conversa dos cidadãos de Tebas.
Iluminação
         A partir do momento em que as luzes se ascendem no início da cena, elas permaneceram constantes até o fim da cena. Será utilizado as luzes mantendo o foco nos atores.
 

Categoria: