quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

  O diálogo entre as artes cênicas e o cotidiano natalense está mais franco, contemporâneo e aberto a reflexões. Longe das amarras e do conteúdo monotemático que caracterizam os tradicionais Autos realizados neste período do ano, quatro montagens inéditas ganham as ruas da cidade a partir desta quinta-feira (4) com incentivo do edital Natal em Cena. Criado em 2013 pela Prefeitura/Fundação Capitania das Artes a partir de reivindicação dos próprios artistas, o Natal em Cena está inserido na programação do Natal em Natal e substitui o formato ‘mega-evento’ por investimentos na dramaturgia e nos grupos que movimentam a cena local de teatro.
Paulo Fuga
A temporada dramatúrgica gratuita é fruto do edital Natal em Cena e aproxima o teatro do cotidiano da cidade. Foto do espetáculo "Margem Ribeira"
A temporada dramatúrgica gratuita é fruto do edital Natal em Cena e aproxima o teatro do cotidiano da cidade. Foto do espetáculo "Margem Ribeira"

A temporada 2014 traz para o centro das três arenas montadas nas zonas Norte, Sul e Oeste os espetáculos “Margem Ribeira”, da Bololô Cia Cênica; “Lamatown – Quando a lama virou mar”, da Casa da Ribeira; “O Quintal de Luís – Memórias do menino Cascudo”, do Grupo Estação de Teatro; e “Céu de Estrelas”, um combinado entre a Cia Gira Dança com o elenco da Tropa Trupe. Cada uma das montagens será encenada nove vezes. “Acredito que as maiores conquistas de 2013 para 2014 foram o aumento do número de projetos e a abertura temática”, destacou Fernando Yamamoto, diretor do Departamento de Programas, Projetos e Eventos da Funcarte/Secult-Natal. Yamamoto lembrou que os projetos contemplados saltaram de dois para quatro, e que este ano foi criada uma terceira arena na zona Oeste. “Nossa meta é chegarmos às quatro zonas”, planeja o gestor, também diretor do grupo de teatro Clowns de Shakespeare. 

Em virtude do tempo exíguo para a montagem sair do plano das ideias, a reportagem do VIVER questionou  se há intenção em antecipar  os trâmites em 2015: “Sim. É um detalhe importante! Esse ano conseguimos adiantar o início do processo em dois meses, mas acabamos reféns da burocracia. Ano que vem esperamos não ter que passar por isso novamente”,  disse. 

Para Fernando Yamamoto, o ideal seria transformar o Natal em Cena em lei e garantir a perenização do incentivo. “Será excelente transformarmos o edital em política de estado, mas antes precisamos de uma articulação com o legislativo que ainda não existe. Mas percebo um grande avanço: temos um edital de montagem com um aporte invejável nacionalmente (R$ 250 mil bruto para cada espetáculo)”.

O otimismo reina em Céu de Estrelas
No espetáculo “Céu de Estrelas” nada é impossível desde que se acredite no próprio potencial. Com dramaturgia de Cláudia Magalhães, direção de Anderson Leão e trilha original assinada por Danilo Guanais, a montagem promove o encontro da dança com o circo e propõe superar as dificuldades da vida com leveza, alegria e arte através do olhar de um garoto vendedor de fogos de artifício que mora nas ruas da Ribeira. 
Artur AbrantesEspetáculo Céu de Estrelas reúne elenco da Tropa Trupe e do Gira DançaEspetáculo Céu de Estrelas reúne elenco da Tropa Trupe e do Gira Dança

Às vésperas do Natal, em meio a preocupação com as compras dos últimos presentes, ele se vê solitário e perdido quando é surpreendido por um assistente do Papai Noel. “Além da mensagem em si e da diversidade de linguagens que compõem o espetáculo, ressaltamos o lado lúdico e na capacidade de envolver toda a família ao falar do respeito ao próximo independente das diferenças”, observou Anderson Leão.

Dias 11, 12 e 13 (20h) na Praça da Matriz em Cidade da Esperança; 18, 19 e 20 (19h) na Praça da Árvore de Mirassol; e 25, 26 e 27 (19h) no Ginásio Nélio Dias

Lamatown e a corrupção
Em um futuro incerto, a cidade de “Lamatown” conseguiu resolver todos os seus problemas sociais graças à descoberta de um recurso natural milagroso: uma lama medicinal que trouxe riqueza e felicidade a seus habitantes. Esse cenário, no entanto, não passa de uma distopia, uma farsa montada com a conivência das autoridades. O totalitarismo e a corrupção imperam em “Lamatown”, onde o dinheiro 'corre a rodo'. Clotilde Tavares assina o texto, Henrique Fontes se encarrega da direção geral e Gabriel Souto a trilha.
Daniel TorresSátira e farsa conduzem enredo do espetáculo LamatownSátira e farsa conduzem enredo do espetáculo Lamatown

Tendo como ponto de partida o clássico “Um Inimigo do Povo” (1882), do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), o espetáculo reflete sobre os rumos da sociedade contemporânea: “Ou a gente muda ou seremos consumidos”, sentencia Henrique Fontes, elencando como tema central a corrupção. “Ela faz as pessoas quererem se dar bem a qualquer custo, gera desejo por poder e dinheiro. É uma  comédia que trata do tema com ironia”, acrescenta o diretor.

Dias 4, 5 e 6 (19h) na Praça da Árvore de Mirassol; 11, 12 e 13 (19h) no pátio do Ginásio Nélio Dias, zona Norte; e 18, 19 e 20 (20h) na Praça da Matriz em Cidade da Esperança

Diálogo à Margem Ribeira 
“O desejo de dialogar com o espaço que convivemos, a Ribeira, um lugar admirado e ao mesmo tempo inóspito, aliado aos personagens criados por Marcelino Freire (escritor de PE) que vivem à margem, deram início ao processo de criação”, informou Alex Cordeiro, ator e coordenador pedagógico do espetáculo “Margem Ribeira”, montagem dirigida por Marcondes Lima (PE) com dramaturgia de Rafael Barbosa (CE) e música de Caio Padilha.

A ameaça de se afogar no rio que pulsa no coração é constante, mas há também o risco de se encontrar tesouros perdidos de Iemanjá. Alex sugere que o público deve ir assistir com o coração aberto: “Não floreamos nada, o discurso é direto e cruel, vão se identificar com as figuras em cena”. 

Dias 4, 5 e 6 (20h) na Praça da Matriz em Cidade da Esperança; 18, 19 e 20 (19h) no pátio do Ginásio Nélio Dias, zona Norte; e 25, 26 e 27 (19h) na Praça da Árvore de Mirassol

Cascudo no Quintal de Luís
Fábula em homenagem a Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), que remonta de forma poética e lúdica uma breve fração temporal na trajetória de vida do autor de obras que são referência nacional nos campos da tradição oral e da cultura popular. “Quintal de Luís” trata-se de um único e último suspiro povoado por criaturas (fictícias ou verdadeiras) que se apresentam como depoentes em um tribunal da própria memória – momento ilustrado por um fato verídico, ocorrido na década de 1920, quando professores pedem a expulsão de Cascudo do Colégio Atheneu por ocupar os espaços da sala de aula com lobisomens e sacis.
Yuno SilvaMontagem inédita Quintal de Luís será incorporado ao repertório do Grupo Estação de TeatroMontagem inédita Quintal de Luís será incorporado ao repertório do Grupo Estação de Teatro

“O espetáculo dá continuidade ao nosso trabalho com contação de histórias, mas desta vez fomos mais fundo na pesquisa sobre o universo cascudiano”, contou o diretor Rogério Ferraz. A dramaturgia é de César Ferrario e a trilha sonora de Caio Padilha. O processo de montagem iniciou com “Canto de Muro”, livro lançado em 1957. “O espetáculo é fragmentado, que ganha unidade no conjunto. Cada cena traz um entendimento, são delírios de Cascudo no momento final da vida”, adiantou Ferraz.

Dias 4, 5 e 6 (19h) no pátio do Ginásio Nélio Dias, zona Norte; 11, 12 e 13 (19h) na Praça da Árvore de Mirassol; e 25, 26 e 27 (20h) na Praça da Matriz em Cidade da Esperança.

Fonte: http://tribunadonorte.com.br/
Categoria: